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F1 e Propriedade de Múltiplas Equipes: Por Que é Permitido?

por Alex Oliveira

A Fórmula 1 é frequentemente descrita como o “pinnacle” do automobilismo, um ecossistema onde a engenharia de ponta se cruza com o marketing global e orçamentos que desafiam a lógica. No entanto, em meio ao glamour de Mônaco e à velocidade de Monza, surge uma questão que causa desconforto crescente entre diretores de equipes e reguladores: a propriedade de múltiplas equipes por uma única entidade. Enquanto a maioria das grandes ligas esportivas ao redor do mundo impõe barreiras rigorosas para evitar o conflito de interesses, a Fórmula 1 parece viver sob suas próprias regras, mantendo um modelo que muitos consideram arcaico ou até perigoso para a integridade competitiva.

O caso mais emblemático é, sem dúvida, o da Red Bull GmbH, que controla tanto a Red Bull Racing quanto a recém-renomeada Visa Cash App RB (anteriormente AlphaTauri e Toro Rosso). Este arranjo não é novo, mas o cenário em que ele opera mudou drasticamente. Com a introdução do teto de gastos e a busca por uma paridade maior entre as escuderias, a existência de uma “equipe B” levanta suspeitas sobre compartilhamento de dados, estratégias políticas coordenadas e uma vantagem injusta que seus competidores, como McLaren e Mercedes, já começaram a questionar publicamente.

O Que Aconteceu: O Modelo Único da Red Bull sob Holofotes

A estrutura de propriedade múltipla na Fórmula 1 não é um acidente, mas sim o resultado de uma necessidade histórica. No início dos anos 2000, a equipe Minardi estava à beira do colapso financeiro, o que ameaçava reduzir o grid para apenas nove equipes. Em 2005, a Red Bull, já proprietária da equipe principal (ex-Jaguar), adquiriu a Minardi com o propósito de transformá-la em uma academia de pilotos, a Toro Rosso. Naquela época, a F1 estava desesperada por estabilidade e o então CEO Bernie Ecclestone incentivou o negócio.

Hoje, porém, a situação financeira da categoria é diametralmente oposta. Com o sucesso do Drive to Survive e a expansão nos Estados Unidos, as vagas no grid valem bilhões de dólares. A convivência de duas equipes sob o mesmo guarda-chuva corporativo gera um debate sobre a independência técnica. Recentemente, a Red Bull Racing e a RB estreitaram seus laços técnicos, transferindo pessoal e utilizando o mesmo túnel de vento, o que acendeu o sinal de alerta em Woking, sede da McLaren.

Zak Brown, CEO da McLaren, tem sido a voz mais vocal contra essa prática. Ele argumenta que o regulamento atual, desenhado para uma era de escassez financeira, não serve mais para um esporte que busca ser uma liga profissional moderna. Segundo Brown, a possibilidade de uma equipe influenciar o desenvolvimento ou a estratégia de outra é uma vulnerabilidade que outras ligas já resolveram há décadas.

Por Que Isso Importa: Integridade e Equilíbrio Competitivo

A preocupação central não é apenas o que acontece na pista, mas o que ocorre nos bastidores. Na Fórmula 1, as decisões políticas são tomadas por meio de votações que envolvem as equipes, a FIA e o Formula One Group. Quando uma empresa controla duas equipes, ela detém, na prática, o dobro do poder de voto de qualquer outro competidor. Isso pode ser usado para bloquear mudanças regulatórias ou garantir que as regras favoreçam seu modelo de negócios.

Além disso, há o desafio da vigilância regulatória. Embora a FIA realize auditorias para garantir que não haja compartilhamento ilegal de propriedade intelectual, a linha entre o que é legal e o que é colaboração “cinzenta” é tênue. Se uma equipe utiliza a mesma suspensão e caixa de câmbio de outra (o que é permitido para certos componentes), até que ponto elas são verdadeiras concorrentes? O esporte se vende como um campeonato de construtores, onde cada time deve projetar seu próprio carro.

Para entender como a F1 é uma exceção, vale comparar com outras modalidades de elite. Em quase todos os outros grandes esportes, a propriedade cruzada é estritamente proibida para manter a confiança dos fãs e dos apostadores. Veja a comparação abaixo:

Liga/EsporteRegra de PropriedadeJustificativa
NBA / NFLProibição total de propriedade múltiplaEvitar manipulação de resultados e conflitos de interesse.
Premier LeagueRestrições severas a participações minoritáriasGarantir a integridade da competição e independência financeira.
Fórmula 1Permitido (Red Bull/RB)Legado histórico e preservação de vagas no grid.

Análise Aprofundada: O Dilema do Pacto de Concórdia

O funcionamento da Fórmula 1 é regido pelo Pacto de Concórdia, um documento comercial e regulatório que une as equipes à detentora dos direitos comerciais (Liberty Media). O atual pacto expira no final de 2025, e as negociações para a nova versão já começaram. Este é o momento crítico onde a regra de propriedade de múltiplas equipes pode ser finalmente alterada. No entanto, não é uma tarefa simples.

A Red Bull argumenta que investiu centenas de milhões de dólares quando ninguém mais queria investir no esporte. Eles salvaram empregos e forneceram uma plataforma para talentos como Sebastian Vettel, Daniel Ricciardo e Max Verstappen. Forçar a venda da RB agora poderia ser visto como uma punição a quem foi o “salvador da pátria” no passado. Por outro lado, a Liberty Media quer aumentar o valor da franquia F1, e ter dez proprietários independentes e distintos é muito mais atraente para investidores globais do que ter um proprietário com 20% do grid.

“A Fórmula 1 precisa evoluir para um modelo de franquias puras. Não há lugar para equipes ‘B’ em um esporte que fatura bilhões e exige integridade absoluta”, diz um analista do setor.

Outro ponto de análise é o teto de gastos. Com o limite orçamentário, equipes grandes não podem mais gastar 400 milhões de dólares por ano. Ter uma segunda equipe permite, em teoria, que uma organização mantenha talentos de engenharia que, de outra forma, teriam que ser demitidos, realocando-os para a equipe irmã. Mesmo que eles não trabalhem diretamente no mesmo projeto, a cultura e o conhecimento técnico permanecem dentro do mesmo grupo econômico.

O Que Esperar: O Futuro do Grid a Partir de 2026

O ano de 2026 marcará uma revolução técnica na Fórmula 1, com novos motores e regulamentos aerodinâmicos. É provável que a FIA e a Liberty Media usem essa transição para endurecer as regras sobre colaboração técnica. Espera-se que a lista de “partes listadas” (peças que cada equipe deve obrigatoriamente projetar sozinha) seja expandida, dificultando a existência de modelos de carros muito similares entre parceiros.

Há também uma pressão externa. A entrada da Audi (que comprou a Sauber) e o interesse da Andretti Global mostram que há novos players querendo entrar na mesa. Esses novos entrantes não querem competir contra um bloco de duas equipes que podem trocar informações ou sacrificar a estratégia de uma em favor da outra durante uma corrida. A pressão política de Zak Brown provavelmente ganhará aliados conforme as negociações do novo Pacto de Concórdia avançarem.

Se a Red Bull for forçada a vender a RB, o mercado entrará em ebulição. Com o valor das equipes em alta, a venda poderia render mais de 1 bilhão de dólares para o grupo austríaco, um retorno colossal sobre o investimento feito na antiga Minardi. No entanto, a Red Bull perderia seu campo de treinamento de pilotos, o que exigiria uma reformulação total de seu famoso programa de jovens talentos.

Conclusão

A propriedade de múltiplas equipes na Fórmula 1 é um vestígio de um passado de sobrevivência financeira que colide com o presente de sucesso comercial estrondoso. Embora a Red Bull tenha sido fundamental para a saúde do esporte por décadas, a categoria atingiu um nível de maturidade que exige independência total de seus competidores. A integridade do esporte depende da percepção de que cada carro no grid está lá para vencer, independentemente de quem seja o dono da garagem ao lado.

A discussão não é apenas sobre a Red Bull, mas sobre o que a Fórmula 1 quer ser no futuro. Se o objetivo é ser comparada às grandes ligas americanas ou ao futebol europeu em termos de governança, a regra terá que mudar. O próximo Pacto de Concórdia será o divisor de águas que definirá se a F1 continuará sendo um clube de amigos influentes ou uma competição profissional transparente e imparcial.

Perguntas Frequentes

Por que a Red Bull tem duas equipes na F1?

A Red Bull comprou a equipe Minardi em 2005 (rebatizando-a como Toro Rosso) para servir como uma equipe júnior para desenvolver jovens talentos, como Max Verstappen e Sebastian Vettel.

Quais são os riscos de uma empresa possuir duas equipes?

Os principais riscos incluem o compartilhamento de dados técnicos ocultos, votos coordenados em decisões políticas da categoria e o uso de estratégias de corrida que favoreçam a equipe principal em detrimento da concorrência.

O que é o Pacto de Concórdia?

É o contrato que rege os termos comerciais e regulatórios entre a FIA, a administração da F1 (Liberty Media) e as equipes, definindo como o dinheiro é distribuído e como as regras são feitas.

A FIA pode proibir a propriedade de múltiplas equipes?

Sim, mas isso exigiria uma mudança nas regras comerciais e regulatórias, o que geralmente ocorre durante a renovação do Pacto de Concórdia para evitar processos judiciais por quebra de direitos adquiridos.

O que Zak Brown propõe para mudar essa situação?

O CEO da McLaren propõe que cada equipe seja totalmente independente, proibindo a propriedade comum e restringindo drasticamente a venda de peças técnicas entre equipes parceiras.

Existem outras equipes com parcerias semelhantes na F1?

Embora nenhuma outra empresa seja dona de duas equipes, existem parcerias técnicas fortes, como a da Haas com a Ferrari e a da Aston Martin/Williams com a Mercedes para o fornecimento de motores e câmbios.

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